Amaro Freitas: “Agimos como se fôssemos extraterrestres no nosso próprio planeta”

amarofreitas

Um dos discos mais importantes do ano celebra a conexão entre a música brasileira, a música de vanguarda erudita e os saberes dos povos originários da Amazônia, conduzido pelo piano do genial músico pernambucano, que conta a história deste disco à Climática (foto: Divulgação)

 

Embora virtualmente desconhecido do público ouvinte brasileiro, o pianista pernambucano Amaro Freitas é um dos principais nomes da música brasileira deste século e acaba de lançar um disco profundamente enraizado nas questões do meio ambiente e dos povos originários. Seu quarto disco chama-se Y^Y (pronuncia-se iê-iê) começou sendo influenciado por uma visita que fez a Manaus que o conectou com um Brasil que não conhecia, da região norte do país. Ao mergulhar nos saberes indígenas, percebeu que poderia levar aquele conhecimento para seu público, mesmo tocando apenas música instrumental. 

 

“Quando cheguei em Manaus achei aquele lugar fantástico e percebi que eu precisava ficar mais um tempo ali”, explica em entrevista à Climática. “Tive uma grande conexão com os rios e com a floresta e pude conhecer uma comunidade indígena, os Sateré Mawé, com quem tive uma troca muito bonita.”

 

 

Pianista e compositor pernambucano, Amaro Freitas foi criado na periferia do Recife mas conseguiu sair de lá através da música, colocando seu piano à serviço da musicalidade afrobrasileira e misturando-a com referências de jazz, música erudita e contemporânea. Seu quarto álbum foi lançado pelo selo norte-americano Psychic Hotline e conta com a participação de nomes importantes do jazz, como o flautista britânico Shabaka Hutchings, o contrabaixista cubano radicado no Brasil Aniel Someillan e os músicos norte-americanos Brandee Younger (harpa), Jeff Parker (guitarra) e Hamid Drake (bateria). 

 

Ele continua explicando como trouxe o conhecimento adquirido na Amazônia para o universo da música, ao misturar com o conceito de piano preparado, criado pelo compositor erudito norte-americano John Cage nos anos 40 do século passado, ao tocá-lo por dentro, usando objetos externos para interferir na sonoridade do instrumento. Se Cage o fazia com moedas, elásticos e parafusos, Freitas o faz com chocalhos e instrumentos de percussão indígena, ampliando ainda mais o espectro sonoro do instrumento. “Eu queria levar esse sentimento de encontro da floresta amazônica para o piano preparado, que vinha estudando, uma vontade de trazer a sonoridade dos rios e da floresta pra dentro desse piano”, explica, “Foi um momento fantástico que me moveu a descobrir esse Brasil que o Brasil não conhece direito. Para quem mora no sudeste e no nordeste, o norte é um outro Brasil, uma outra temperatura, um outro jeito, um outro gosto… Um novo símbolo que traz outros saberes que a gente realmente não conhece. E com isso vem a ideia que a gente tende a imaginar que qualquer coisa relacionada à Amazônia é algo muito antigo. Foi muito massa, perceber o que é a Amazônia agora, suas questões, sobre desmatamento, a poluição dos rios, a invasão do território indígena, o garimpo ilegal. Foi muito importante pra mim perceber isso.”

 

O disco, lançado em março deste ano, mistura essa sonoridade selvagem e ancestral a uma musicalidade que conversa tanto com o piano erudito de vanguardas europeias e de clássicos da música brasileira, como Tom Jobim, mas o tempo todo frisando a importância deste novo saber adquirido, além da noção de encantamento, que batiza três de suas canções. 

 

“Tentei, através da subjetividade da música, prestar uma homenagem aos povos indígenas e à exuberante natureza do norte, falar da construção de um Brasil que não foi nos dado em sala de aula e criar uma espécie de alerta brasileiro sobre o encantamento, que faz parte da cultura brasileira, para falar sobre o rio e sobre a mata não só como um tributo”, continua o músico pernambucano. “Queria que esse tipo de informação fosse levada para as escolas, para que nós pudéssemos entender que somos humanos e também somos natureza. Agimos como se a gente tivesse criado um outro mundo e os indígenas nos ensinam que essa forma que agimos é como se fôssemos extraterrestres no nosso próprio planeta. Eles têm uma conexão tão potente dos saberes através do movimento da lua, da água, do vento e eu quero compartilhar isso com as pessoas que têm acesso à minha música e, através do som, celebrar essa identidade brasileira, essa mata, esse rio que é nosso, que também é Brasil.”

 

Ele vê seu disco como uma entrada. “É um portal pra essa troca com os povos originários. De alguma forma abrir esse diálogo com este saber foi muito importante pra mim. E ele é um portal que pode se aprofundar e me fazer chegar em lugares que ainda não sei dimensionar”, conclui.

 

Conteúdos relacionados

asian city with waterfront

ARTIGO | Os desafios que Belém deve superar até a COP 30, em novembro de 2025

ARTIGO | A importância da conservação da biodiversidade

pexels lagosfoodbank

ARTIGO | Mudanças Climáticas: preocupação mundial com os impactos das atividades humanas e as discussões internacionais

ertkahilton

“Urgente e fundamental”: Deputada Erika Hilton fala sobre justiça climática