“A Queda do Céu” celebra cosmologia Yanomami em Cannes

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Gostaria que os brancos parassem de pensar que nossa floresta é morta e que ela foi posta lá à toa. Quero fazê-los escutar a voz dos xapiri, que ali brincam sem parar, dançando sobre seus espelhos resplandecentes. Quem sabe assim eles queiram defendê-la conosco? Quero também que os filhos e filhas deles entendam nossas palavras e fiquem amigos dos nossos, para que não cresçam na ignorância. Porque se a floresta for completamente devastada, nunca mais vai nascer outra.

 

O trecho do livro “A queda do céu”, publicado em 2010 por Davi Kopenawa e Bruce Albert, é parte de uma série de relatos do xamã ao etnólogo, com quem nutre longa amizade. O best-seller é resultado de mais de 30 anos de conivência entre Kopenawa e Albert e foi adaptado recentemente para o cinema por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha em um documentário homônimo. Exibido no último domingo (19) durante o 77º Festival Anual de Cinema de Cannes, na França, “A queda do céu” é uma coprodução Brasil-Itália-França.

 

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Filme é inspirado no livro homônimo de Davi Kopenawa (foto), xamã Yanomami e líder indígena, e do antropólogo francês Bruce Albert (Foto: Aruac Filmes/ Divulgação)

 

O portal Sumaúma publicou com exclusividade o trailer do filme baseado na cosmologia Yanomami, que também  alerta para as ameaças decorrentes das mudanças climáticas, sobretudo na Amazônia. A câmera acompanha a vida na floresta de uma aldeia indígena, onde cerca de 30.000 pessoas donas de seu próprio território são vítimas recorrentes de invasões de garimpeiros e de madeireiros.

 

“Será uma belíssima oportunidade e uma dupla celebração: de ver e ouvir explodir na tela o sonho e a luta do povo Yanomami e da força poética e geopolítica do xamã, filósofo e líder Davi Kopenawa”, disse Eryk ao portal Sumaúma, antes da exibição do documentário em Cannes. Eryk Rocha é filho do também cineasta Glauber Rocha (1939-1981), diversas vezes indicado à Palma de Ouro de Cannes e vencedor, na categoria de melhor diretor, da edição de 1968, com “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”.

 

Para a codiretora Gabriela Carneiro da Cunha, “A Queda do Céu” expressa no cinema o arrebatamento que se tem ao ler o livro. “Mas principalmente nossa relação e o que foi vivido em carne, osso e espírito ao longo dos últimos sete anos ao lado de Davi, Watorikɨ e os Yanomami”, explicou Gabriela, também ao Sumaúma. Adaptar “A queda do céu” para o cinema começou a se concretizar em 2017 — antes da pandemia da Covid-19, responsável pela morte em massa de integrantes da etnia indígena no território amazônico.

 

Adaptar o livro também estava nos planos de José Celso Martinez Corrêa, que queria levar o texto ao seu Teatro Oficina. Caso não tivesse saído de cena aos 86 anos, vítima de um incêndio em seu apartamento em São Paulo, Zé Celso conduziria um elenco majoritariamente formado por atores e artistas indígenas. Trechos da obra inacabada do dramaturgo foram lidos durante a programação do Festival TePI: Teatro e os Povos Indígenas, em julho do ano passado na capital paulista.

 

Leia também: Identidade e território – O que o cinema recente mostra?

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