10 clássicos da música brasileira que dialogam com personagens da crise climática

Musicas e clima

A primeira foto da Terra vista do espaço ganhou o mundo em 1969, encerrando uma década atormentada pelo medo da bomba atômica e escandalizada com os crimes civis e ambientais da Guerra do Vietnã. A imagem impressa nas revistas e jornais sensibilizou por sua delicadeza: pequenina e coberta de nuvens (diferente das estrelas), como lembraria Caetano Veloso anos depois.

 

 

“As primeiras fotos saíram quando eu estava preso durante a Ditadura, as vi pela primeira vez na cela. Eu considerava a ironia da minha situação: preso numa cela mínima, admirava as imagens do planeta inteiro, visto do amplo espaço”, disse o compositor na ocasião de Narciso em Férias (2020), documentário em que narra sua experiência na prisão durante os Anos de Chumbo e lembra a origem da canção Terra, um de seus grandes sucessos.

 

 

 

 

A mesma Terra — para o pé, firmeza e esperança de liberdade de um preso político — se liquefez na voz de Guilherme Arantes nos anos 1980. Planeta Água foi por muito tempo uma espécie de hino ecológico nas escolas brasileiras que evoca com simplicidade rebuscada os ciclos da água no planeta:

 

 

Água que nasce na fonte serena do mundo

E que abre um profundo grotão

Água que faz inocente riacho e deságua

Na corrente do ribeirão

 

 

Em entrevista à Rádio Mix em 2022, Guilherme Arantes contou que compôs a música de maneira psicografada em 15 minutos, e que ela era originalmente uma encomenda para um álbum de Ney Matogrosso sobre a Amazônia, mas que havia ficado tão boa, que ele a tomou para si. “Eu trabalhava em um centro de umbanda, era médium, tinha ligação com os elementos da natureza e a água sempre foi meu elemento”, conta o filho de Oxum, orixá das águas doces na Umbanda e no Candomblé. “Quando eu sentei pra fazer a música, baixaram todos esses elementos e eu fui descrevendo o ciclo da água”, acrescenta.

 

 

 

De abundante a escassa, a água é protagonista também em Asa Branca, outro clássico do cancioneiro popular brasileiro. Gravada em 1947 por Luiz Gonzaga, a letra segue atual ao lançar luz sobre o Sertão Nordestino, onde o fenômeno da desertificação tem raízes no desmatamento e nas queimadas e foi agravado pela própria crise climática. Na voz do Rei do Baião, o hino sertanejo composto em parceria com Humberto Teixeira fala da esperança de que os olhos verdes da amada devolvam o colorido à plantação, trazendo o retirante ao seu lugar de origem e desfazendo o caminho trilhado no êxodo para o Sudeste.

 

 

 

 

 

Essa mesma arte de viver da fé foi lembrada pelos Paralamas do Sucesso três décadas depois. Alagados se tornou hit dos anos 1980 expondo a outra face do êxodo rural, o das construções irregulares urbanas. A letra dialoga com conceitos atuais ao falar das maiores vítimas do racismo ambiental: as periferias, onde os efeitos da crise climática são mais severos. Nas palafitas e farrapos das favelas da Maré (no Rio de Janeiro), de Alagados (em Salvador), e de Trenchtown (em Kingston, na Jamaica), a esperança cantada por Herbert Vianna se contrapõe a uma cidade de braços abertos e com os punhos fechados para a pobreza.

 

 

 

 

A desigualdade alargada pela falsa ideia de desenvolvimento é descrita também em A Cidade, música-símbolo da contracultura e do movimento Mangue Beat no Recife dos anos 1990. A letra de Chico Science fala de uma metrópole que se apresenta como centro das ambições para ricos e mendigos, transformando em rima suas dicotomias e evocando, mais uma vez, os ecos do racismo ambiental:

 

 

A cidade não para, a cidade só cresce

O de cima sobe e o de baixo desce

A cidade não para, a cidade só cresce

O de cima sobe e o de baixo desce

 

 

 

 

Uma outra cidade submersa: Futuros Amantes, de Chico Buarque, é um clássico de 1993 sobre amores adiados que esbarra em teorias científicas sobre os efeitos do aquecimento global em cidades costeiras como o Rio de Janeiro, provavelmente inundadas no futuro com a elevação no nível do mar provocada pelo derretimento das geleiras. “Eu estava mexendo no violão, comecei a fazer a melodia, e a primeira coisa que apareceu foi exatamente ‘cidade submersa”, lembra Chico. “Aí eu coloquei os escafandristas e esse amor adiado, que fica pra sempre, essa ideia do amor que existe como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passam-se milênios e esse amor vai ficar debaixo d’água, vai ser usado por outras pessoas”.

 

 

 

 

Outra profecia, lançada em 1976 por Caetano Veloso, é uma espécie de distopia alienígena sobre a chegada de uma estrela colorida e brilhante no coração do Hemisfério Sul, na América, “depois de exterminada a última nação indígena e o espírito dos pássaros das fontes de água límpida”. Dessa nave espacial descerá “um índio preservado em pleno corpo físico”, surpreendendo aos povos não por ser exótico, mas por revelar o que permaneceu oculto ao longo dos séculos, apesar de toda sua obviedade.

 

 

 

 

 

Também de quando “índio” era uma palavra politicamente aceita — hoje o termo é considerado pejorativo por ser reducionista e caricato —, uma voz em primeira pessoa ecoou o lamento de quem desejou ter de volta o ouro entregue como prova de amizade. Índios, da banda Legião Urbana, ficou marcada nos anos 1980 especialmente por uma estrofe de Renato Russo que sintetiza a falsa ideia de civilização decorrente das invasões europeias a partir de 1500:

 

 

Quem me dera ao menos uma vez

Que o mais simples fosse visto

Como o mais importante

Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente

 

 

 

 

Esse mesmo paradigma civilizatório foi revisto por Mário de Andrade no poema Descobrimento, trazendo para os anos 1920 novas ideias sobre nação e pertencimento. O poema modernista, declamado pelo também poeta Ferreira Gullar, foi incorporado por Maria Bethânia em 2003 na música Salve as Folhas, de Gerônimo Santana e Ildásio Tavares, que evoca a cosmovisão africana e a mitologia dos orixás para lembrar que “sem folha não tem sonho, sem folha não tem vida, sem folha não tem nada”.

 

 

Descobrimento

 

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

 

 

 

 

Mas talvez nenhum outro encontro reúna tantos elementos proféticos e simbólicos sobre as ideias de nação e pertencimento quando o vivido por Milton Nascimento em 1989, quando embarcou em uma expedição amazônica com destino à comunidade Ashaninka, no Acre. Um ano depois, Milton lançaria o álbum Txai, palavra que na língua dos Kaxinawá quer dizer “mais que amigo” e é usada para se referir com carinho aos defensores dos povos da floresta.

 

 

Uma das faixas do disco, Benke, homenageia o menino indígena que passou dias ao lado de Milton na excursão. Mais de três décadas se passaram daquele encontro até que Benki Piyãko se tornasse um dos principais porta-vozes dos povos indígenas do Brasil. Uma de suas missões é manter o trabalho do Instituto Yorenka Tasorentsi, criado por ele, que atua na recuperação de terras degradadas por meio do reflorestamento na região do Vale do Juruá, no Acre, onde o instituto já plantou mais de 3 milhões de espécies.

 

 

 

 

 

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