Primeiro advogado indígena da UFPA denuncia assassinato em seu território: “crime segue impune”

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Isac Tembé, também conhecido como Kamarar, era professor de História e fundou grupo que fortalecia a cultura do povo Tembé (reprodução/ Instagram) 

 

 

Mataram dentro do meu território

Alan Tembé*

 

Amanhece e os jovens da aldeia se organizam para mais uma caçada em busca de alimentação. Nessa equipe, um jovem se destaca como principal caçador da aldeia. É Kamarar**, assim conhecido por todos. Tem 24 anos. Profundamente envolvido nas tradições de seu povo, atuante na comunidade e na organização da juventude. É professor de História.

 

A caravana dá partida e ele, logo atrás, pega seu arco e flecha, seu bizaco (ou bornal) e segue mata adentro com seus parentes. Nessa missão, todos aproveitam para fazer também a vigilância do seu território contra grileiros e madeireiros.

 

Caminham por mais de seis horas no meio da floresta. A caravana pausa para descansar e se alimentar com aquilo que a natureza lhes deu no decorrer da viagem. Ali mesmo acampam para seguir viagem no próximo dia.

 

Cinco horas da manhã, ouvem sons nas árvores e nos galhos. Era um wariu (guariba), que pula de galho em galho à procura de alimentação. Outros animais vão surgindo conforme a luz do dia vai clareando a floresta. Logo ali tem um riacho. Levantam acampamento e seguem viagem ao seu destino.

 

Algumas horas de caminhada e os mais jovens gritam. É uma manada de katitú (porcão) do mato que passa. Aproveitam para matar alguns. Fartura para aldeia que os aguarda. Antes do sol se pôr, a caravana chega ao seu destino: o limite da reserva, onde encontram vestígios de invasão, desmatamento, fazenda, sítios e madeiras.

 

A certo ponto da caçada já está escuro. No ramal que dá acesso direto à aldeia, a caravana é surpreendida pelos faróis altos de caminhonetes. Vários homens não-indígenas descem gritando. Os caçadores se dispersam para se esconder, menos o guerreiro Kamarar.

 

Ouvem-se tiros de armas de fogo. Um dos projéteis disparados por policiais militares do Estado acerta o caçador no tórax. Ele está desarmado. 

 

Kamarar morreu no seu território caçando alimento. Seu povo ainda está em situação de pavor e trauma pela tragédia vivenciada.

 

O guerreiro deixou companheira grávida com seis meses de gestação e três filhos adotivos.

 

A missão se encerrou com tristeza e lágrimas. Missão que será sempre lembrada por ser um mais caso de massacre e criminalização de lideranças indígenas.

 

O caso ainda não foi solucionado pelo Estado e o crime ainda segue impune.

 

Há décadas lutamos contra essa violência e não vamos parar até que nenhum metro de nossa terra esteja ilegalmente ocupado. Não temos medo. A Constituição Federal assegura e protege nossos direitos e o Estado brasileiro precisa fazer cumprir o que manda a lei maior.

 

Alan Tembé* é advogado atuante da causa indígena. Em 2017 foi o primeiro estudante indígena a se formar em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA). A Faculdade Livre de Direito foi fundada em 1902 e antecede a existência da UFPA (juntou-se a ela em 1957). É  hoje o curso que mais oferta vagas em uma única graduação na UFPA, somando 200 oportunidades de ingresso nos três turnos de aulas.

 

Kamarar**, ou Isac Tembé, foi assassinado em fevereiro de 2021 na Terra Indígena Alto Rio Guama, em Paragominas, no nordeste do Pará. Morto depois de um ataque sem justificativa desferido por policiais militares, o  professor de História era uma liderança atuante na comunidade e na organização da juventude. Isac Tembé fundou o Kamarar Wà, grupo que buscava fortalecer a cultura do povo Tembé, recuperar danças, músicas antigas e empoderar mulheres. O povo Tembé-Tenetehara é vítima constante de ameaças externas. Em setembro de 2019, por exemplo, o Ministério Público Federal (MPF) requisitou à Polícia Federal e ao comando do Exército em Belém (PA) operação para evitar ataques de madeireiros contra os indígenas.

 

 

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