O que é, afinal, o pensamento verde?

pensamento verde

Ambientalismo é movimento social e político, ainda que apartidário. Pensamento verde é uma filosofia, um conjunto de valores que prega um estilo de vida sustentável

 

 

*Letícia Yumi Marques

 

Mais um Dia Mundial do Meio Ambiente está sendo comemorado. A data é convite à reflexão sobre o papel do pensamento verde na nossa sociedade digital e ultraconectada, onde ganha mais destaque, às vezes de forma positiva, às vezes de forma negativa, a depender do viés político-ideológico do interlocutor. Apesar da guerra de narrativas e até para sabermos lidar com ela de forma inteligente, é importante que pensamento verde seja entendido como é: um conjunto compartilhado de valores. E, ainda, que o ambientalismo e o pensamento verde são coisas diferentes.

 

Segundo Brian Doherty, os adeptos do pensamento verde (ou filosofia verde) têm em comum uma identidade. O compartilhamento dessa identidade é importante para classificar alguém como parte do pensamento verde, pois é a partir dela que se gera um tipo de solidariedade, que dará sustentação para ações coletivas. Os “verdes” – prossegue Doherty – são aqueles que compartilham uma certa visão de mundo e de estilo de vida e não apenas o público que visita parques aos finais de semana. Exemplos de valores compartilhados são a necessidade de mudança de estilo de vida para um modelo com menos consumo, com preferência por orgânicos e alimentos produzidos com respeito ao bem-estar animal e a não utilização do carro como modal de transporte. Mas vale dizer que a identidade que torna alguém parte do pensamento verde é flexível, varia de acordo com aspectos culturais e, por isso mesmo, abarca pessoas de diferentes origens, com vieses político-partidários distintos e etnias distintas. O que se espera, em todos os cenários, é que o “verde” haja de forma coerente com os seus valores e com aquilo que professa.

 

Já o ambientalismo é um movimento social e, como tal, para Doherty, compartilha das características de outros movimentos sociais, que incluem a ação fora de instituições políticas, por meio de protestos; interações não institucionalizadas e a rejeição ou desafio às formas dominantes de poder. A sua característica mais marcante é o compartilhamento de uma visão de mundo – ou seja, de uma identidade – a partir de um posicionamento antagônico (“nós” e “eles”).

 

Talvez seja essa ênfase à polarização do movimento ambientalista que faça com que as questões ambientais estejam, no Brasil, sempre envolvidas em polêmicas e objeto de embate por forças políticas opostas. Recentemente, vimos a tragédia climática no Rio Grande do Sul ser igualmente disputada por narrativas econômicas e partidárias opostas. Mas o ambientalismo, como movimento social, não opera, ao menos não totalmente, dentro de partidos políticos por duas razões: ou os partidos não estão abertos às suas ideias; ou porque ser parte de uma instituição política não é adequado para mudanças. 

 

Para Doherty, os ambientalistas são outsiders. E são outsiders porque protestam por direitos ou contra projetos específicos. A partir do momento em que essa pauta se perde, o movimento perde independência. A preocupação é o meio ambiente e não temas político-partidários.

 

Como movimento social outsider, o ambientalismo, tal como descrito por Doherty, pode ser claramente identificado nos protestos do grupo Fridays For Future contra as mudanças climáticas, que ocorreram há cerca de 5 anos diversos países da União Europeia – Suécia, Alemanha, Itália, Noruega e Portugal. É importante registrar que, na Inglaterra, onde o grupo também realizou protestos, o parlamento declarou estado de “emergência climática” em todo o Reino Unido. A moção foi apresentada pelo Partido Trabalhista, mas aceita por unanimidade pelo Partido Conservador – ou seja, a questão ambiental foi colocada acima das diferenças ideológico-partidárias.

 

O caminho mais eficaz para o ambientalismo no Brasil, a fim de que haja avanços nas pautas que defende, talvez seja o distanciamento da polarização, com abandono (ou menos ênfase) no discurso antagônico. Este seria o caminho para independência das reivindicações ambientais, que, atualmente, no Brasil – ao que tudo indica – se confundem com reivindicações partidárias.

 

Esse fenômeno é negativo para a preservação da natureza, porque a polêmica afasta uma parte da sociedade da preocupação com o meio ambiente que a cerca. É preciso gerar empatia e não há empatia onde existe antagonismo.

 

O pensamento verde, como visto, não tem partido e não é, por si só, um movimento social. É uma filosofia; um conjunto de valores que prega a mudança para um estilo de vida mais sustentável. É perfeitamente possível ser “verde” sem ser parte do movimento social ambientalista e é igualmente possível ser “verde” e ao mesmo tempo parte de um movimento social ambientalista outsider, defendendo uma pauta de forma apartidária. A escolha pelo pensamento verde pressupõe a vontade de fazer uma mudança de estilo de vida. A escolha pela adesão ao movimento ambientalista pressupõe o antagonismo às formas dominantes de poder e a militância para modificação de um status quo. Porém, em quaisquer dos casos, parte-se da mesma premissa: a consciência da necessidade da preservação ambiental.

 

*Letícia Yumi Marques é doutoranda em Direito (UFPA), mestra em Sustentabilidade (USP), especialista em Direito Ambiental (Mackenzie), pós-graduada em Direitos dos Animais (Universidade de Lisboa) e em ESG na Prática: Diversidade e Inclusão nas Empresas (FGV-Law) e bacharel em Direito (PUC-SP). Vencedora do prêmio Rising Star of The Year 2024 – Environment, da publicação inglesa The Legal 500, hoje atua como professora nos cursos de extensão da Universidade Presbiteriana Mackenzie e como advogada.

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